14/12/2007 16:56
ENTREVISTA DA SEXTA
Você não conhece Fábio Matos. Eu sei que não.
Ele é um jornalista recém-formado que atualmente trabalha como editor de internet no site da ESPN Brasil.
Mas, se você gosta de futebol, já ouviu falar em Roberto Dias.
Pois bem. Fábio Matos escreveu um livro sobre Roberto Dias.
Chama-se "Dias - A vida do maior jogador do São Paulo nos anos 1960", e será lançado no dia 19, no Bar São Cristóvão (R. Aspicuelta, 533, Vila Madalena, São Paulo).
Como você já leu aqui, viva a literatura esportiva brasileira!
O blog conversou com Fábio, por e-mail (editor de internet só fala por e-mail...).
BLOGOL - Qual a sua idade? Obviamente você não viu Roberto Dias jogar (se viu, é um caso para o "Arquivo X"...). Como surgiu a idéia de fazer uma tese de conclusão de curso sobre um cara de quem você apenas ouviu falar?
FÁBIO MATOS - Completo 24 anos no dia 31 de dezembro, e só vi Roberto Dias jogar por meio de alguns vídeos da época, quase sempre com os melhores momentos de jogos do fim de sua carreira. Mas a curiosidade em relação a ele sempre foi grande: meu pai e meus tios, todos são-paulinos, tiveram Dias como seu maior ídolo no futebol e sempre falaram muito dele em nossas reuniões de família. Eu e meus primos provocávamos, só de birra, questionando por que tanta admiração por um jogador que conquistou "só" dois títulos paulistas com a camisa do São Paulo - enquanto os "nossos" ídolos, Raí, Muller, Cafu, Zetti, e mais recentemente Rogério Ceni, foram decisivos para o fortalecimento de uma geração de são-paulinos acostumados aos títulos sul-americanos e mundiais. Daí partiu a idéia, por curiosidade mesmo, de contar a história desse grande ídolo dos torcedores do São Paulo que hoje têm entre 50 e 60 anos. No fim das contas, não só entendi muito bem por que Roberto Dias é apontado como um dos grandes símbolos do meu clube de coração como, de quebra, pude praticar jornalismo como jamais havia feito em quatro anos de faculdade. E me dei conta de que estava diante de um baita personagem - e não só um dentro de campo. Um personagem com uma série de histórias pessoais, de vida mesmo, que mereciam ser contadas.
BLOGOL - E como a tese acabou se transformando em livro?
FM - Mesmo antes do fim do ano passado, quando apresentei o trabalho de conclusão de curso à banca examinadora, eu e meu orientador (orientador, amigo e referência profissional absoluta, Celso Unzelte) constatamos que não havia nenhum registro mais completo sobre a vida de Roberto Dias em nossa literatura esportiva. Só reportagens, entrevistas, alguns vídeos, nada além disso... Justamente pela riqueza do personagem - que, repito, tem uma história que não se resume apenas ao futebol -, era óbvio que havia espaço para a publicação do livro e que Dias merecia mesmo uma obra mais consolidada. Com a ajuda do Celso, fui à procura de editoras possivelmente interessadas e do próprio São Paulo. Cheguei até a ter duas reuniões no Morumbi, ao lado da sala do Juvenal Juvêncio, com o pessoal do marketing do São Paulo - eles gostaram muito do livro, revelaram-se grandes fãs do Dias, mas as conversas posteriores não avançaram. Em relação às editoras, o discurso foi quase unânime: o trabalho estava muito bem feito, mas eu só poderia publicar caso aceitasse pagar todos os custos... Apesar de triste, o diagnóstico é lamentavelmente verdadeiro: o Brasil é um país que lê muito pouco. Lê menos ainda livros de futebol. E menos ainda, livros de craques do passado. As editoras não topavam o risco de publicar o livro e ter prejuízo depois, e eu, obviamente, não tinha recursos para arcar com todos os custos da publicação. Infelizmente, a situação mudou um pouco só após a morte do Dias, em setembro deste ano - e o triste é perceber que as coisas foram, digamos, "facilitadas" por conta do falecimento dele. Dois conselheiros do São Paulo que já sabiam da existência do livro - Edson Francisco Lapolla e José Roberto Canassa - me procuraram e aceitaram bancar a publicação. A Pontes Editores, que já tem um trabalho muito bonito de preservação da memória do futebol brasileiro (o José Reinaldo Pontes, dono da editora, é torcedor da Ponte Preta e apaixonado por futebol), editou o trabalho e o colocou no mercado. É uma pena que o Dias não tenha vivido para ver o livro nas prateleiras, mas ao menos ele não morreu sem ver o trabalho pronto. Em um de nossos últimos encontros, numa "pizzada" de fim de ano perto do Natal de 2006, ele me disse que tinha certeza de que o livro sairia um dia. E que torcia muito para isso.
BLOGOL - Qual é a maior dificuldade que um estudante tem de enfrentar para publicar sua tese? Na sua experiência, qual foi o grande obstáculo?
FM - Acho que atualmente é complicado publicar um livro sendo estudante, jornalista formado ou um profissional mais experiente, infelizmente. Um recém-formado talvez tenha um pouco mais dificuldade por não ter tantos canais de contato no meio editorial quanto um jornalista ou um escritor com mais anos de estrada - o que é absolutamente natural. No meu caso, logo percebi essas dificuldades de mercado: as editoras temem prejuízo - o que também é natural em um país que lê pouco. Sempre tive a exata noção dos problemas que enfrentaria e procurei não criar uma grande expectativa. Entretanto, quando o trabalho é bem feito, é claro que as chances aumentam consideravelmente. Tive paciência e fui persistente. E, no fundo, acreditava que algum dia o TCC se transformaria em livro. Só não esperava que fosse tão rápido, um ano depois da apresentação à banca.
BLOGOL - É uma carreira que começa, ou foi um episódio isolado? Você pretende continuar escrevendo?
FM - Espero que sim! A verdade é que, ao contrário da maioria de meus colegas de último ano na faculdade - que sempre falavam do "drama" que era fazer o TCC -, sempre tive muito prazer com todo o processo de escrever o livro. Me dediquei muito a isso, deixei o estágio que estava fazendo na época e passei ao menos um semestre inteiro focado apenas na biografia do Dias. Mais que a boa nota, a aprovação na faculdade ou mesmo a expectativa de um dia ver o livro publicado, o que mais me empolgou foi o prazer que tive ao longo de mais de um ano de trabalho. Se encontrar um outro personagem interessante que desperte em mim a vontade de pesquisar mais e mais, é claro que eu encaro o desafio de escrever outro livro. Tenho paixão especial por biografias, e acho que esse poderia mesmo ser um caminho bacana para a minha formação como jornalista. Já que você perguntou, vou responder e fazer um pouco de mistério ao mesmo tempo: andei pensando em um antigo craque e até já levantei algumas coisas sobre sua história para ver se "dá" livro... Também não há nada sobre ele no mercado. E o pessoal da Pontes parece que tem um projeto de lançar uma biografia de um outro ex-jogador. Enfim, já são duas opções, né? Quem sabe...
BLOGOL - O Dias foi craque, quem se interessa por futebol sabe. Fora isso, o que mais te marcou ao mergulhar na vida dele?
FM - A história de Roberto Dias Branco como craque do São Paulo e da seleção brasileira é rica, muito rica. E isso está detalhado no livro. Mas logo percebi que estava diante de um personagem muito maior que os limites do campo de futebol - e não poderia desconsiderar essa característica no livro. Essa foi uma das preocupações desde o início do trabalho: fazer um livro que interessasse não só aos amantes do futebol ou aos são-paulinos que viram ou não viram Dias jogar; mas também àquelas pessoas não dão a mínima para o esporte. E o legal é que a história de vida do Dias se presta a isso e justifica essa opção do livro. O que mais me marcou, sem dúvida, foram os problemas pessoais que ele teve de enfrentar principalmente depois de abandonar o futebol: teve dois infartos (um ainda atuando), um acidente vascular cerebral (AVC), foi vítima do alcoolismo, perdeu dois filhinhos recém-nascidos, perdeu a mãe e se separou da esposa quase na mesma época... Enfim, é uma trajetória marcada por alguns dramas pessoais graves. Tive o cuidado de não transformar o biografado em "vítima" ou escrever uma "novelinha" ao invés de um livro. O Celso me ajudou muito também nesse aspecto. No fim das contas, gostei do resultado, até porque o próprio Dias sentiu a seriedade do trabalho e não teve problemas em se abrir. Mesmo nas questões mais íntimas e delicadas, ele sempre foi muito transparente.
BLOGOL - Este é um livro para são-paulinos?
FM - É um livro para são-paulinos, corintianos, palmeirenses, rubro-negros, vascaínos, atleticanos e torcedores de todas as equipes. Mais que isso: é um livro que pode ser lido tranqüilamente por alguém que não acompanha futebol ou, mesmo que goste do assunto, não tenha tanta intimidade com a figura do Dias. Acho que é um livro para quem gosta de ler uma boa história, uma história muito rica. Diante de um personagem do tamanho de Roberto Dias Branco, nem que o autor quisesse poderia escrever um livro desinteressante... Para ficar ruim, só se eu me esforçasse muito para atrapalhar (risos)!
BLOGOL - Que nota sua tese recebeu na faculdade? De repente, o(a) professor(a) não gostou do tema...
FM - Tirei 9,5. Todo mundo me pergunta isso agora, que o livro está para sair, e espera ouvir um "DEZ" como resposta (risos). Mas tirei um merecido 9.5, nota dada por uma banca que elogiou muito o trabalho e me ajudou a corrigir algumas coisas para a publicação. Fiz questão de convidar para a banca examinadora o professor apontado como o "carrasco" das bancas de TCC da Cásper Líbero, o professor de Ciência Política e apaixonado por futebol Cláudio Niwcles Arantes, por quem tenho grande admiração. Quando o convidei, sabia muito bem que havia acabado de abrir mão da tal da nota 10 (risos)... Também avaliaram o trabalho o professor Maximino Antonio Boschi, de Cultura Brasileira, e um de meus ídolos no jornalismo, mestre Helvídio Mattos. Fiquei desconcertado quando o Helvídio começou a elogiar o livro! Para mim, as palavras dele já valeram o diploma e foram um baita incentivo.
enviada por André Kfouri
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