BLOGOL Kfouri
09/11/2007 11:00

ENTREVISTA DA SEXTA

Reproduzimos hoje a entrevista feita pela tradicional revista argentina "El Gráfico", no mês passado, com Maxi Biancucchi.

Interessante ver como um jogador que só tem 23 anos já passou por tanta coisa na carreira.

Mais interessante ainda é conhecer suas impressões sobre o Flamengo, numa conversa em que ele não precisaria se preocupar em dar respostas "politicamente corretas".

No final, ele fala sobre os irmãos mais novos, também jogadores.

Mais "primos do Messi" estão chegando...


EL GRÁFICO - Seu sobrenome é com "cc" ou com "ch"?

MAXI BIANCUCCHI - Com os dois.

EG - Agora sim, façamos um resumo de sua carreira.

MB - Comecei ainda menino no Grandoli, o clube do bairro. Depois fui ao Tiro Suizo, de Rosario. Estive no San Lorenzo, nas categorias inferiores, mas tive problemas para me adaptar. Daí fui para o Libertad, do Paraguai, e neste país andei por vários clubes, sempre por empréstimo porque meu passe era do Libertad. Passei pelo General Caballero, pelo Tacuarí e pelo Fernano de la Mora, todos times pequenos, mas da primeira divisão.

Também fiquei seis meses parado. Discuti com o presidente do Libertad, ganhei meu passe e fui para o Luqueño, onde fui campeão. Depois o Flamengo veio e comprou a metade do meu passe.

EG - Não foi nada fácil o teu caminho...

MB - Sempre que tenho oportunidade, conto como foi, porque tive de remar contra muitas coisas. Tenho muita fé em Deus e isso é o que sempre me sustentou. Sou evangélico, vou muito à igreja, mas nada mais, ainda que tenham inventado que eu era pastor ou algo parecido, mas não tem nada a ver. Parece que isso partiu de algumas pessoas do Luqueño, na época em que fiquei parado. Não sabiam o que dizer de mim e inventaram isso.

EG - Seu primeiro treino no Libertad não foi nada auspicioso, não?

MB - Ah, sim, me lembro. Tinha acabado de chegar e saltei para cabecear com um cara que tinha uns dois metros. Acabei com traumatismo craniano, um coágulo de sangue, operação de emergência e sete meses sem jogar. Imagine, estava no Paraguai, parado e sozinho, porque ainda nem conhecia a minha mulher. Foi muito difícil.

EG - Depois de tudo isso as coisas melhoraram a agora o Maracanã grita por seus gols...

MB - Apesar de tudo que passei, sempre acreditei em mim. Sabia que teria minha oportunidade e ela chegou. Fiquei alguns jogos no banco e em todos entrei e fui bem. Depois fui titular no clássico contra o Fluminense, fiz um gol, a torcida gostou e agora me adora.

Por aqui tudo gira em torno da torcida. As conversas, tudo o que se fala durante a semana, tudo... Somos o time que leva mais gente ao estádio, mesmo quando estávamos na zona de rebaixamento. Agora levantamos e saímos dessa posição.

EG - E você joga com a dez. Sabe de quem foi essa camisa?

MB - Sim, de Zico, maior ídolo do clube. Logo começaram a falar sobre isso, mas aqui não usamos números fixos como na Argentina, mudamos a cada jogo. Fiquei parado alguns dias por uma lesão, e não sei como será quando voltar. Mas essa é minha, ninguém tira.

EG - Como está o Flamengo?

MB - Levantamos. É uma grande instituição e temos um time muito bom. O problema é que o time demorou para ser montado. Se mantivermos o plantel, tenho certeza de que no ano que vem vamos brigar por algo importante.

EG - É um sonho realizado está aí?

MB - Sim, porque um jogador sempre pensa em estar num clube grande. É nessa hora que você mostra se é um bom jogador ou não. No Libertad não tive muitas oportunidades e me faltava isso. Mas, por outro lado, estou começando aqui e ainda tenho muito o que mostrar. Tenho muita vontade de fazê-lo.

EG - Tem mais aspirações? Tempo não te falta...

MB - Todo jogador argentino quer ir para a Europa e eu não sou a exceção. Você quer estar ao lado dos melhores. Eu sonho com tudo, até com a Seleção. Mas agora quero ganhar campeonatos com o Flamengo. Jogar na Argentina é outra conta pendente e seguramente algum dia vou fazê-lo.

EG - É verdade que no Brasil, agora, quando se fala de Messi, fala-se do "primo de Maxi"?

MB - Na internet há fóruns que perguntam: "Você conhece Messi? O primo de Maxi.". Eu brinco sobre isso com Lionel. Falei com ele outro dia e contei. E os companheiros brasileiros que ele tem no Barcelona lêem os jornais daqui e falam de mim: "Teu primo fez um gol, teu primo jogou bem...", eles dizem.

Aqui as pessoas têm carinho por mim. A torcida tem uma canção dedicada ao Obina, outro atacante que é um ídolo total por aqui e que chamam de o "Eto'o brasileiro". Cantam "Ô, ô, ô, o Obina é melhor que o Eto'o", e agora fizeram outra: "E o Maxi é melhor que o Messi".

EG - Mas o assunto do parentesco já te incomodou, não?

MB - Sim, sim, não é fácil... sempre tomo cuidado para falar disso porque pode haver uma interpretação errada e a idéia não é essa. Mas sim, em alguns momentos foi um peso. Houve uma vez em que não acreditaram em mim, disseram que era uma invenção.

EG - Continua sonhando em encerrar a carreira no Newell's (Old Boys, clube argentino) ao lado de Leo?

MB - Sim. Falamos sobre isso, mas sempre brincando, claro. Imagino-me numa final de Copa Libertadores, por exemplo. Sou torcedor do Newell's e algum dia creio que jogaremos lá. Mas já disse a ele que é para chegar inteiro. Que não volte gordo ou velho. Eu gostaria de fazer como o Verón no Estudiantes. Chegar depois de uma grande carreira na Europa, mas impecável fisicamente.

EG - Nunca esteve no Newell's?

MB - Sim, quando era pequeno, mas nunca joguei um minuto no Newell's. Uma vez, fiz um teste. Mas nesta época eles queriam jogadores altos, me mandaram de volta para casa e isso me matou. Como te disse antes, as coisas nunca foram fáceis para mim, sempre tive que remar. Mas com o tempo colhi os frutos, e tenho esperança de que colherei mais.

EG - Parece que o talento na família não se esgotou entre você e Lionel. Seus irmãos mais jovens vão pelo mesmo caminho, não?

MB - Emanuel (19 anos, joga na base do Newell's) sofre muito. Não é nada fácil ser o primo de Messi. Há muita inveja, comparações... Mas ele tem um jogo elegante, e fora do campo é parceiro de Leo. Em Rosario, vão juntos para todos os lados.

EG - E o Bruno? Esse dizem que é o melhor...

MB - Brunito (10 anos, está na escola de futebol de Renato Cesarini) está por cima. Nasceu na época certa. Não tem que remar contra nada. Já sai nos jornais, é incrível. Falando sério, meu pai me conta que ele vai muito bem. Tem muita personalidade e jeito para coisas grandes. Tomara que tenha um caminho mais fácil do que o que tive de percorrer.

EG - Já foi a Barcelona visitar seu parente mais famoso?

MB - Sabe que não. Tive chance de ir na época em que estava parado, mas não deu. Agora é impossível. Mas deixa estar, que já, já, vou jogar contra ele. Sempre brinco sobre isso com ele, digo que vou para o Real Madrid e vou ganhar um clássico.


enviada por André Kfouri






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