BLOGOL Kfouri
31/10/2007 10:05

ESCOLHA A PÍLULA VERMELHA

Interessante o que está acontecendo no tênis, por causa da jogatina aparentemente desenfreada que ganhou as manchetes.

Fiz algumas ligações ontem, ouvi algumas histórias sinistras, que não podem ser provadas e, portanto, publicadas.

Mas a coisa é assustadora, porque, com um pouquinho de imaginação, mostra uma realidade completamente diferente da que conhecemos.

É como a conversa entre Morpheus e Neo, em "Matrix", na qual a pílula azul mantém as coisas como estão e a vermelha revela o que é realmente real.

Você está pronto para a pílula vermelha?

Então imagine um tenista russo (hipotético, sem segundas intenções), segundo colocado no ranking.

A vida é doce para ele. Milhões de dólares em prêmios, outros milhões em contratos de patrocínio, independência financeira mais do que atingida.

Tudo, claro, à custa de muito treino, muito suor e muito tênis.

É uma celebridade do esporte. A cada semana, organizadores de diferentes torneios procuram seu agente para oferecer o que se chama de "garantia".

É uma quantia em dinheiro (para jogadores nesse nível, algo entre 100 e 200 mil dólares, dependendo do tamanho do torneio), adiantada, para garantir que aquele tenista escolherá aquele torneio para disputar.

Com a presença da estrela, os organizadores faturam bem mais com bilheteria, televisão e promoções, de modo que é dinheiro bem gasto. Todo mundo fica feliz.

Exceto quando a estrela apenas aparece para buscar o dinheiro e se manda. Simples assim.

Digamos que ele saia da Rússia para disputar um torneio na Nova Zelândia. O torneio aceitou a pedida de, sei lá, 175 mil dólares para ele atravessar meio mundo, quando poderia jogar bem mais perto de casa.

Nosso campeão pega o avião em Moscou na sexta, chega a Auckland no sábado, estréia no domingo contra um menino de 19 anos que saiu do qualifying, vence o primeiro set, mas perde os dois seguintes, sem se esforçar muito.

Na segunda-feira à noite, ele está jantando com a namorada no mais estrelado restaurante moscovita, obviamente sem se preocupar com a conta.

Falta de profissionalismo? Falta de ética? Você pode dizer isso, sem dúvida. Mas já aconteceu, e vai continuar acontecendo. E pode ser muito pior.

Lembre que, em nenhum momento, nosso amigo pensou em passar mais tempo em Auckland do que o mínimo necessário para chegar, perder, pegar o dinheiro e dar no pé.

Ele sabia que ia perder. Ele pode decidir quando vai perder.

Seu técnico, seu preparador-físico, seu nutricionista, seu massagista, seu psicólogo, seu irmão, seu primo, e todos os irmãos e primos do técnico, do preparador-físico, do nutricionista... sabem que ele vai perder na primeira rodada em Auckland.

Agora, a pergunta de um milhão de dólares: num site de apostas na internet, quando está pagando uma derrota do segundo melhor tenista do mundo para um desconhecido saído do qualifying?

Vê? Com um telefonema, os 175 mil da garantia podem se transformar em apenas mais um motivo para ir até o outro lado do mundo, pois pode-se ganhar muito mais.

E pode-se repetir a operação três, cinco, dez vezes por ano.

Evidentemente não nas mesmas condições, com garantia envolvida, para não sujar (mais) a barra. Mas em uma primeira rodada em Xangai, uma segunda rodada em Dubai, ou na Costa do Sauípe. É só tomar a decisão, totalmente unilateral: vou perder amanhã.

Como dizia aquela propaganda: é fácil, quando se sabe.

A ATP está tão preocupada (não com as apostas, pois conhece o problema há anos, mas com o escândalo) que contratou uma consultoria especializada em apostas online para rastrear jogos suspeitos.

O italiano Filippo Volandri (ao lado do russo Nikolay Davydenko, multado na semana passada em US$ 2 mil por "não ter se esforçado" - é sério - num jogo no ATP de São Petersburgo) é um dos jogadores que mais aparecem em partidas que mostraram movimentações incomuns de dinheiro.

Foi Volandri que perdeu para Gustavo Kuerten, neste ano no Sauípe, por 6/3 e 6/1 em 46 minutos.

Guga não vencia um jogo há 532 dias. Cada dólar apostado no brasileiro pagava 4,5 vezes mais.

Este é um jogo suspeito? Pode apostar. Mas todos os hóspedes, de todos os hotéis, da Costa do Sauípe sabiam que o italiano tratava uma lesão no ombro naquela semana.

Pelas regras da ATP, se um tenista desiste de disputar um torneio antes da estréia, tem de custear as próprias despesas de hospedagem e alimentação.

Se perde na primeira rodada ou mais adiante, tem a semana inteira paga.

O que você faria, se fosse Volandri?

Sério... não há o que pensar.

Porém, porém, ele sabia que ia perder. E como a cotação em seu favor caiu notavelmente antes do jogo começar, parece que mais gente sabia.

Hmmmm...

Bem-vindo à matrix.


enviada por André Kfouri






Feed: Seja avisado quando este blog for atualizado :: (O que é isso?)
André
Kfouri


Blogueiro
de esportes

Blog de Bola
Blig do Gomes
Universo da Bola
Bola No Mundo



CAIXA-POSTAL:
Perguntas, críticas e sugestões
Blog do Juca
Trivela
Blog do PVC
Blog do Milton Leite
Espn Brasil
Espn
iG Esportes