05/10/2007 20:12
ENTREVISTA DA SEXTA
Abaixo, a transcrição da entrevista exclusiva feita pelo repórter Fred Júnior, da Rádio Jovem Pan, com Márcio Vicente Rodrigues.
Márcio é o treinador das categorias de base do Palmeiras, agredido a socos e chutes pelo torcedor organizado Paulo Serdan, no último sábado, em Santos, por ter substituído o filho de Serdan num jogo do time Sub-14 do clube.
RÁDIO JOVEM PAN - Como foi a agressão?
MÁRCIO VICENTE RODRIGUES - Naquele jogo, tivemos cinco desfalques. Um desses desfalques era o lateral-esquerdo titular, que chama-se Samuel. E o lateral-esquerdo imediato seria o Caíque, filho do Paulo Serdan. Foi o que eu fiz, coloquei o Caíque. Só que ele não estava bem no jogo. Ele não estava bem e eu, até para poupá-lo, e poupar a equipe, acabei o substituindo. Improvisei um garoto naquela posição, e dentro do possível, a gente conseguiu cercar aquele lado. Ao final do jogo, eles fizeram o alongamento, como é de costume, e nós fizemos a oração no meio do campo. Ao final da oração, eu olhei para trás e ele me deu um soco no rosto. Eu caí imediatamente, não estava preparado, foi por trás, e ele chutou minhas costas. Acabei fraturando três costulas e tive uma fratura no rosto também. Foi exatamente isso o que aconteceu.
JP - Na hora em que ele te agrediu, ele falou alguma coisa para você ou foi tudo em silêncio?
MVR - Na verdade eu não lembro de nada. Depois que eu tomei o soco, eu caí e logo veio o chute nas costas. Eu fiquei com falta de ar, ficou tudo preto. Mas o meu preparador físico, que estava ao lado e depois entrou na frente dele, graças a Deus, e os garotos também entraram na frente dele pedindo "pelo amor de Deus, não faz isso, não faz isso", falaram que na hora que ele me deu o soco ele disse "isso aqui é pelo pai", e na hora que ele me chutou, ele falou "e isso é pelo torcedor". Foram essas palavras que ele falou, e depois foi embora.
JP - Você já teve algum problema com Paulo Serdan?
MVR - Quero deixar bem clara uma coisa: quando eu cheguei ao Palmeiras, o
(ex-técnico do Palmeiras) Marcelo Villar era o nosso coordenador e o
(Salvador Hugo, dirigente) Palaia era o nosso diretor de futebol. Eles pediram que eu reduzisse o número de jogadores, porque havia muitos jogadores por categoria. Tinha por volta de cinquenta jogadores por categoria. E foi o que eu fiz, eu diminuí o número de jogadores. Aí fiz relatórios sobre todos os jogadores. Qualidade técnica, tudo... E quando veio o relatório para mim, que estava liberado, que podia mandar embora, foi isso que nós fizemos, mandamos embora. Não teve problema nenhum. Um dia, jogando no CT do Palmeiras contra o Clube da Mercedes, pelo Campeonato Paulista, ele perguntou para mim "você é o Márcio?", eu falei que sim e ele começou a me ofender, me xingar, disse que eu não poderia ter feito aquilo. Eu havia feito exatamente o que a diretoria me pediu. Para diminuir o número de jogadores e ficar com os melhores. Aí o chamaram para uma reunião, pediram para ele ter paciência, porque foram eles que pediram. E depois disso ele sossegou, não atrapalhou mais. Sempre levei o filho dele para os jogos. Dentro do possível, a gente também preza pelo garoto, né? Porque ele é bom menino. Eu, sempre que possível, colocava o filho dele. Não guardei rancor nenhum, não sou pessoa de guardar rancor, pelo contrário. Mas essa raiva dele vem desde essa época, que nós mandamos os jogadores embora. Não sei porque ele ficou nervoso.
JP - Nos bastidores, fala-se que o Palmeiras dispensou muitos jogadores que eram ligados à (torcida organizada) Mancha-Alviverde. Você está com medo?
MVR - A gente fica um pouco temeroso, sim. Não vou negar isso para você. Mas eu tenho o respaldo do Palmeiras, né? Já de antemão vou avisar que não sou mais o treinador do Sub-14 do Palmeiras, sou treinador só do Sub-15, que não é a categoria do Caíque. Até porque não existe mais clima, o menino não tem culpa, ele vai continuar o Palmeiras. Ele está sendo avaliado como todos estão sendo avaliados, e vai continuar dando sequência. Só que eu vou continuar na categoria Sub-15, até para evitar algum problema que possa acontecer. Mas a gente sempre teme um pouquinho, né? O que eu peço só é paz, eu quero só trabalhar. É o que eu sempre fiz, honestamente. Eu tenho família, tenho uma filha pequena. O que eu quero é só paz, trabalhar pelo Palmeiras como estou fazendo desde agosto do ano passado, tentando sempre dar o meu melhor, e fazendo com que todos eles sempre dêem o melhor.
JP - Sua família também está assustada, né Márcio?
MVR - Minha esposa só chora, pede para eu não ir mais. Mas a diretoria pediu e eu vou dar sequência ao meu trabalho. A minha esposa está assustada, sim.
Nota do blog: O promotor público Paulo Castilho, atual responsável pelo problema da violência no futebol de São Paulo, entrou em contato com Márcio Vicente e lhe pediu as informações sobre a agressão. Castilho também ouviu testemunhas do ocorrido.
O caso vai para o Ministério Público de Santos, que deve chamar Paulo Serdan para esclarecimentos. Paulo Castilho disse que Serdan pode ter a prisão preventiva decretada, por estar usando "de um meio sórdido para calar testemunhas e autoridades do Palmeiras".
O Palmeiras o suspendeu por 90 dias, e pode expulsá-lo do quadro de sócios.
enviada por André Kfouri
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