19/10/2007 12:19
ENTREVISTA DA SEXTA
Antes da temporada da Fórmula 1 começar, alguém será capaz de lembrar, conversamos com Flávio Gomes sobre o que veríamos nas pistas em 2007.
Agora só falta uma corrida, é aqui no Brasil, e decide o título dos pilotos.
Voltar ao tema é nossa obrigação, assim como repetir o entrevistado.
O Gomes é pole-position no que faz.
Abaixo, nosso papo com ele, por e-mail.
BLOGOL - Na boa, você cobriu o campeonato inteiro e tem de saber: quem será campeão no domingo?
FLÁVIO GOMES: Hamilton. Mas espero que seja Alonso. Se bem que pode dar Raikkonen. Sendo sincero? As chances de todos são boas, porque todos os resultados de que precisam são mais ou menos normais. Raikkonen leva se os dois da McLaren se enroscarem. Hamilton pode se dar mal numa pista cheia de macetes. Alonso anda bem aqui. Portanto, sem querer abusar dos clichês, tudo pode acontecer. Leva quem souber controlar os nervos. De todos, Kimi é o que chega como franco-atirador.
BLOGOL - Campeão ou não, Lewis Hamilton é um fenômeno?
FG - Relativo. Ninguém teve a chance que ele teve, de estrear num time de ponta que casualmente está em boa fase, tendo como companheiro um cara que deu um upgrade na equipe. E ele está lá há dez anos e é amado pelo chefe como se fosse um filho. Hamilton está desfrutando bem dessas condições e, por isso, pode ser considerado um fenômeno, sim. Porque ele poderia ter tudo isso e estar andando lá atrás. Mas não, está na briga pelo título e vivendo um aprendizado que muitos pilotos não tiveram em anos. Um curso intensivo de F-1, com pressões, disputa interna, essas coisas. Só que é preciso ver quanto tempo isso vai durar. Tenho curiosidade para ver como ele vai se virar se o Alonso sair, tendo de liderar uma equipe. De qualquer modo, mesmo se ele não fizer mais nada na carreira, já terá sido um fenômeno. De um ano só, mas ainda um fenômeno.
BLOGOL - Corre nos bastidores que ele não é inglês. Na verdade, é brasileiro e se chama Luis Hamilton. O que você sabe sobre isso?
FG - Ainda bem que ele não é brasileiro. Fico imaginando a babação de ovo sobre ele se fosse.
BLOGOL - O que você achou do rolo da espionagem e das punições? Como se diz no futebol, o campeonato "ficou manchado"?
FG - Besteira. Esporte nenhum fica manchado de maneira definitiva. Ninguém deixa de acompanhar esporte algum por causa de seus escândalos. Ao contrário, acompanha ainda mais. É assim com os problemas de doping no ciclismo. A cada ano que passa, embora todo mundo saiba que só tem pilantra correndo, mais gente assiste ao Tour de France. Em Olimpíadas é o mesmo. Só tem bandido dopado correndo e saltando, e os estádios ficam cheios de gente torcendo. Espionagem na F-1 sempre existiu. Só que desta vez pegaram o sujeito da Ferrari. A punição foi na medida. US$ 100 milhões de multa não é pouco. A perda de um título ganho, também não. Punir os pilotos seria dar um tiro no pé do campeonato.
BLOGOL - Outra que se você não souber, é um brincalhão: em qual carro Fernando Alonso estará sentado no ano que vem?
FG - Renault. Mas pode ser Toyota. Se bem que não descarto a possibilidade de ele ficar na McLaren.
BLOGOL - Você poderia, por favor, comentar as temporadas dos pilotos brasileiros (fora o Luis, claro) neste ano?
FG - A do Barrichello foi abaixo da crítica. Há 90% de responsabilidade da Honda, claro, que fez um carro pior que meu DKW. Mas o Button, mesmo com aquela carroça, fez alguns pontinhos. Rubens está em fim de carreira. Deveria parar no fim do ano. Mas ele diz que se sente bem e motivado, e se tem um time que o quer, que continue. Só que ninguém deve esperar mais nada dele. Massa teve um bom momento nas vitórias do Bahrein e de Barcelona. Achei que ali entraria na briga pelo título. Mas cometeu alguns erros que tiveram grande peso, como passar no sinal vermelho em Montreal e se classificar mal na Hungria. Num campeonato muito equilibrado, perder pontos assim, em grande quantidade, é fatal. Massa é bom piloto, vem melhorando de ano a ano, mas precisa de mais regularidade.
BLOGOL - Dos "herdeiros" brasileiros que podem aparecer na F-1 no futuro próximo, em quem você bota mais fé, Bruno Senna ou Nelsinho Piquet?
FG - Nelsinho é um cara que vem sendo preparado para chegar lá. Bruno começou tarde, tem pouquíssimo tempo de carreira, mas aprendeu rápido. Só que não tem nada de especial. Parece mesmo ser um piloto comum. Não sei se chega à F-1. Depende de fazer um campeonato excepcional na GP2 no ano que vem, o que me parece pouco provável. Nelsinho corre no ano que vem e creio que tem chance de fazer uma carreira longa. Está num ambiente que lhe é muito familiar. Com o carro certo, na equipe certa, pode virar alguma coisa.
BLOGOL - O asfalto de Interlagos ainda é um problema, na opinião dos pilotos? Qual pista é o Wembley da F-1? E qual estádio é o Interlagos do futebol?
FG - Como escrevo durante o treino, com pista molhada, ninguém falou nada ainda. Mas como sou piloto, respondo: sim, ficou bom. Na verdade, para mim já era bom. Meu carro é um DKW que fica a 10 cm do chão, e não um F-1 que anda a 2 ou 3 cm com suspensões duríssimas e cheias de frescura. Pelas imagens de TV, acabaram mesmo com as ondulações, o que é bem legal e os pilotos vão parar de encher o saco. Quanto às pistas... Bem, o autódromo mais imponente e espetacular é o da China, pelo luxo, grandiosidade, instalações, essas coisas. Mas a pista mais legal é Spa-Francorchamps. Sobre a relação estádio-Interlagos, se entendi bem, eu diria que é o Pacaembu: envelhecido, defasado, mas charmoso e indispensável.
enviada por André Kfouri
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