10/08/2007 12:13
ENTREVISTA DA SEXTA
O livro "Levantando a Vida", biografia do levantador Ricardinho, está pronto.
Muito aguardado desde as vésperas dos Jogos Pan-Americanos, será lançado no próximo dia 14.
O jornalista Luiz Carlos Ramos, co-autor, conversou com o blog por e-mail.
BLOGOL - Como surgiu a idéia do livro? Você procurou o Ricardinho ou foi o contrário?
LUIZ CARLOS RAMOS - Fui procurado por amigos de Ricardinho, em novembro de 2006. Eles sabiam de meus dois livros anteriores: "Carrasco de Goleiros", sobre Ronaldo Fenômeno, que escrevi com mais dois autores, Brás Henrique e Luiz Puntel, lançado em 1998, e "Vicente Matheus: Quem sai na chuva é pra se queimar", de 2001. Negociei detalhes financeiros e funcionais e comecei o trabalho em fevereiro de 2007, ao viajar para a Itália, já que Ricardinho defende o time de Módena no Campeonato Italiano.
BLOGOL - Antes desse trabalho, como era sua relação com ele? Esse contato mudou sua maneira de vê-lo como atleta e pessoa?
LCR - Fiquei conhecendo o Ricardinho pessoalmente só em 15 de fevereiro deste ano, ao chegar a Módena para iniciar as entrevistas. Até então, eu admirava a excelente seleção de vôlei do Brasil e, em especial, três jogadores: Giba, Gustavo e Ricardinho. Ao ver jogos pela TV, me chamava a atenção a agilidade do levantador Ricardinho, o melhor levantador do mundo.
BLOGOL - Durante o projeto, você se dedicou completamente ao livro ou manteve outras atividades?
LCR - O projeto começou em 15 de fevereiro e terminou em 29 de julho, no dia seguinte ao da decisão do vôlei no Pan. Com muito esforço, consegui manter as outras atividades profissionais, mesmo porque sei que livro dá dinheiro só em raros casos: sou diretor de Jornalismo da Rádio Capital AM de São Paulo e professor de jornalismo na PUC-SP, além de dar aulas de reportagem e texto no Curso Intensivo de Jornalismo Aplicado do Grupo Estado. Trabalhei durante 40 anos em jornais do Grupo Estado: saí do Estadão em 2006. Fui jornalista esportivo nos 18 primeiros anos de uma carreira jornalística que já completou 43 anos. Por causa do livro, viajei duas vezes para a Itália, em fevereiro e em abril. E ir para a Itália não é sacrfício nenhum... Também fiz entrevistas em São Paulo, com os pais do jogador, e usei o e-mail e o telefone para entrevistar muitas outras pessoas que compõem essa história, entre as quais um dos primeiros técnicos de Ricardinho, Luís Pereira, um grande conselheiro, hoje fora do vôlei.
BLOGOL - O Ricardinho não é muito jovem para um livro biográfico?
LCR - Não é jovem, não: ele está no ponto para mostrar sua vida em livro. Tem 31 anos de idade, dos quais 10 anos defendendo a Seleção Brasileira; é titular desde 2002. É campeão mundial e olímpico e tem seis títulos da Liga Mundial no hepta do Brasil (ele não estava no grupo quando do título de 1993). Pelé teve seu primeiro livro biográfico em 1961, quando tinha apenas 21 anos de idade e, então, estava longe de se consolidar como o maior jogador de futebol de todos os tempos. O autor daquele livro? Simplesmente Benedito Ruy Barbosa, hoje famoso pelas telenovelas.
BLOGOL - Qual foi o impacto do episódio do corte do Pan no livro? Sei que haveria um capítulo dedicado à Liga Mundial, mas como vocês lidaram com a repercussão do corte?
LCR - Boa pergunta, André. Meus planos eram de concluir o livro quase totalmente antes do Pan: 40 capítulos. E consegui isso, já em 29 de maio. Ricardinho e eu decidimos que seria legal fazer um 41.º capítulo com a provável conquista do Pan, daí a decisão de lançar o livro em meados de agosto, contando com a agilidade da editora. No entanto, uma vez que em 15 de julho o Ricardinho foi escolhido o melhor jogador da fase final da Liga Mundial, na Polônia, e acabou sendo cortado do Pan seis dias depois, propus (e ele aceitou) fazer dois capítulos finais, em vez de apenas um. O corte foi uma pena, mas afetou os planos apenas parcialmente: o capítulo 42 persistiu, tendo como base o Pan e os episódios que o antecederam. Ricardinho diz ter ficado arrasado, tanto que se trancou em seu partamento em Maringá e evitou entrevistas. Três dias depois de ter sido cortado, ele me telefonou, admitiu que tinha chegado a pensar até em cancelar o livro, mas demonstrei que, nesta altura, muita gente quer saber quem é o Ricardinho, tanto o grande campeão quanto o marginalizado por Bernardinho. Então, combinamos de fechar esse texto algumas horas depois da final do Pan. E decidimos: não mexeríamos nos demais capítulos, dos quais vários apresentam elogios ao técnico Bernardinho. Não se mexe na história: ponto de honra.
BLOGOL - Ainda sobre este assunto, o livro trará uma versão definitiva sobre o que aconteceu? O Ricardinho falou muito pouco (publicamente) a respeito...
LCR - Como jornalista, caro André, não acredito em versão definitiva. Há sempre duas ou três versões. Ou até mais. O livro apresenta a versão do atleta Ricardinho, alguém em quem confio, mas admito que o Bernardinho tem o direito de dar entrevistas e até fazer um capítulo complementar no livro dele, "Transformando Suor em Ouro", para mostrar sua "verdade dos fatos". De fato, Ricardinho quase não falou com repórteres após o Pan, mas não para promover o livro e sim porque estava, sim, compreensivelmente aborrecido. Ele conta, no capítulo 42, pelo menos alguns detalhes do desgaste ocorrido entre ele, capitão do time, e a comissão técnica. Houve mesmo choque durante a viagem de um mês ao Canadá, Finlândia e Polônia, antes do Pan. Um dos fatores é a discussão sobre a divisão de prêmios por títulos, mas Ricardinho ressalta que, ultimamente, não era ele quem tratava desse assunto com o comando da seleção. E mais: rebate a informação de que chegou atrasado à apresentação para o Pan, no Rio, à revelia da comissão técnica.
BLOGOL - Qual é a característica do Ricardinho que surpreenderá as pessoas que estão acostumadas apenas a vê-lo jogar?
LCR - A característica é de um cidadão do povo, uma bela história. Ele é de um bairro pobre de São Paulo, Jardim Capelinha, na região de Santo Amaro, e foi apoiado pelos pais desde o início, principalmente quando, aos 8 anos, teve um tumor benigno na perna direita. Esse tumor obrigou o garoto a ser submetido a uma complicada cirurgia para reforçar a cabeça do fêmur. Deu certo: veja como ele corre na quadra... E Ricardinho, mesmo depois de ter chegado à seleção brasileira, viveu situação parecida com a de tantos outros jovens brasileiros: ficou desempregado. Casado e pai de duas lindas meninas, Ricardinho vive para o esporte e para a família. É impressionante o prestígio que ele tem na Itália, país em que o vôlei é uma potência em termos de organização, público e dinheiro. Ricardo é ótima pessoa, além de um atleta em busca da perfeição. Tem fama de ter "gênio difícil", do tipo indomável, mas essa é uma cacterística de quase todos os grandes levantadores do vôlei. O próprio Bernardinho, que foi levantador reserva na seleção medalha de prata na Olimpíada de 1984, é assim. E as funções de capitão expõem bastante aquele que ocupa o cargo, provocando o risco de desgaste nas relações no grupo.
BLOGOL - Se compararmos com o que acontece na Europa e nos Estados Unidos, a literatura esportiva ainda engatinha no Brasil. Fora daqui, há jornalistas e escritores que praticamente vivem de projetos como o seu. Você vê alguma perspectiva de um aquecimento dessa área no nosso país?
LCR - Concordo com você: ainda engatinha. Mas tem melhorado muito. Vejo bons livros sobre esportes. Alguns, escritos por jornalistas e escritores famosos; outros, não tanto, mas também bons. Vejo possibilidade de muitos autores viverem de escrever livros de esporte no Brasil, pois temos ainda inúmeros atletas do futebol e de outras modalidades que são personagens em potencial para livros de qualidade. É só dar uma espiada na história recente do futebol brasileiro e nas equipes de basquete, vôlei, assim como em destaques do atletismo, natação, ginástica, automobilismo.
BLOGOL - O livro será lançado no dia 14, em Maringá. Haverá lançamentos em outras cidades? Como vocês pretendem promovê-lo e divulgá-lo?
LCR - Por decisão de Ricardinho, ele comparecerá a apenas um lançamento, o do dia 14, a próxima terça-feira, às 16 horas, em Maringá, cidade do Norte do Paraná onde mora com a família. Por minha parte, para não frustrar meus amigos, programei um lançamento numa pizzaria de São Paulo, a Margherita, nos Jardins. E já estou dizendo que esse livro "vai começar em pizza". Tenho recebido convites de outras cidades para promover lançamentos. Poderei estudar detalhes com a editora, a Dental Press, que é de Maringá. Já o Ricardinho está de viagem programada para a Itália em agosto mesmo.
BLOGOL - Uma última pergunta, jornalística, da qual não há como fugir: o Ricardinho voltará a jogar na Seleção Brasileira de Vôlei?
LCR - Acredito que sim: em minha opinião de jornalista, Ricardinho ainda jogará na seleção, talvez já no fim deste ano, uma vez que haverá Copa do Mundo em Tóquio com a presença de equipes bem mais fortes do que essas que disputaram o Pan. Considero o Marcelinho um ótimo levantador e vejo futuro no Bruno, independentemente de ele ter o sobrenome Rezende, o do Bernardinho. Mas Ricardinho é apontado como aquele que revolucionou o vôlei mundial. E faria falta não só na Copa do Mundo, um torneio anual que neste ano será em novembro, como principalmente na Olimpíada de Pequim, em agosto de 2008. Percebo nos jogadores um movimento para conseguir a reconciliação entre Ricardinho e Bernardinho: isso ficou claro na homenagem prestada por eles quando da entrega das medalhas do Pan, em 28 de julho, no Rio. Escreveram na bandeira do Brasil o 17, número de Ricardinho, e lembraram o pacto feito entre Ricardinho e Giba, já na Olimpíada de Atenas, em 2004, de eles dois ficarem juntos na seleção pelo menos até os Jogos de 2008. Por outro lado, o Bernardinho, que já provou ser inteligente e bastante Competente, poderá dar uma contribuição para os dois voltarem às boas. Aliás, entre os 40 capítulos iniciais do livro, há muitos elogios do Ricardinho ao Bernardinho, mas também são relatados outros casos de incidentes entre ambos. Se após aqueles casos foi conseguida a paz, talvez ainda seja possível agora, embora o episódio do corte do Pan tenha sido bem mais complicado que os anteriores.
enviada por André Kfouri
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