BLOGOL Kfouri
24/08/2007 12:56

ENTREVISTA DA SEXTA

As impressões do grande Marcel de Souza, vinte anos depois, sobre uma das vitórias mais importantes do esporte brasileiro em todos os tempos.

Final do basquete masculino do Pan de 87, em Indianápolis.

Brasil 120 x 115 Estados Unidos


BLOGOL - Suas sensações sobre aquele dia mudaram com o passar dos anos, ou tudo continua igual?

MARCEL DE SOUZA - Pra mim é como se tudo tivesse acontecido ontem, porque foi uma coisa muito importante na minha vida. Nós passamos uns dois ou três anos sem acreditar muito naquilo. Mas na medida em que o tempo passou, e isso eu sempre falo para as pessoas até em palestras, o que ficou de mais importante para mim é que o impossível não existe. Ninguém achava que dava para ganhar daquele time, nem nós. A gente ficava vendo o time deles treinar e se perguntava "Como vamos fazer?". Mas aí a gente foi lá e venceu o impossível. Então, o que aquele dia me ensinou, na minha vida, é que não há nada que eu não possa fazer. Eu posso fazer tudo o que eu quiser, se me preparar do jeito certo. O impossível é uma coisa que não existe.

BLOGOL - Se você tivesse que escolher apenas um momento, uma cena, daquela vitória, qual seria?

MS - Aquilo passa pela minha cabeça como um filme. Mas se você me perguntar o momento que mais me marcou, foi o seguinte: nós ganhamos o jogo, tal, aquela emoção toda na quadra, festa e tudo. Aí teve a cerimônia de premiação. Depois, o Oscar, o Ari Vidal (técnico) e eu fomos para a entrevista coletiva. Os americanos falaram antes, ficaram lá tentando explicar o inexplicável. Nossa entrevista durou quase duas horas. Quando nós voltamos para o vestiário, o time inteiro ainda estava lá nos esperando. E aí nós ficamos lá sentados conversando sobre o jogo, por quase uma hora. Esse é o momento que eu guardo com mais carinho, porque foi uma coisa de amizade, de vários amigos conversando sobre a coisa incrível que nós fizemos. Eu não lembro direito o que foi dito, mas aquele papo me marcou.

BLOGOL - O que você, pessoalmente, pensava antes do jogo?

MS - Eu estava com medo. E não tenho vergonha nenhuma de dizer isso. Puro medo. Medo sabe do quê? De tomar uns cinquenta pontos daqueles caras na final. A gente sabia que o ginásio estaria lotado, e eu pensei que tomar cinquenta no jogo da medalha de ouro ia ser uma coisa muito feia. Eu jogava na Itália, o Oscar também, e ia ficar feio pra gente. Por isso que eu digo que essa história de que o "medo de perder tira a vontade de ganhar" é papo furado. Então, pra deixar claro, eu estava morrendo de medo. Mas aí o jogo começa e você se acalma, está concentrado. O primeiro tempo acabou com 14 pontos de vantagem pra eles. E com dois minutos no segundo tempo, a vantagem subiu para 22. E eu pensei "Pô, ainda tem 18 minutos de jogo... pra essa vantagem chegar a 30 e começar a complicar é um pulo." Só que teve o seguinte: no intervalo, o time deles saiu antes do vestiário para voltar para a quadra. Nós saímos depois. E eu vi umas caixas de champanhe, uns bonés e camisetas comemorativas entrando no vestiário dos americanos (Nota do blog: Oscar diz a mesma coisa. Mas há quem diga que foi José Medalha, auxiliar-técnico de Ari Vidal, que providenciou uma garrafa de champanhe no intervalo e mostrou para os jogadores brasileiros, dizendo que a tinha tirado de dentro do vestiário americano. Teria sido uma cena para motivar a Seleção Brasileira. Se foi isso mesmo, e tão convincente a ponto de jogadores dizerem que VIRAM as garrafas entrando no outro vestiário, Medalha merece um prêmio.). E isso não pode, isso é contra a lei do esporte. Quando a vantagem deles chegou a 22 pontos, eles começaram a tirar sarro. E o que nós fizemos? Começamos a dar porrada neles, bater mesmo. Empurrar no corta-luz, deixar o cotovelo na marcação, e provocar de verdade. Os moleques (era um time de universitários), em vez que não dar bola e seguir jogando, entraram na pilha. Tanto que nós começamos a deixar eles chutarem livres, a dizer que eles podiam chutar. Eu sempre fui um cara que sabia provocar o adversário e me manter calmo. O Oscar também, o (pivô) Israel também. Eles começaram a errar, e perderam totalmente a confiança. E o fato é quando faltavam uns dez minutos, a gente já estava na frente. Dava pra eles reagirem, claro. Mas na cabeça de quem ganhava por 22, eles já estavam perdendo de 30. Aí nós ficamos trocando cestas e ganhamos de cinco pontos.

BLOGOL - No momento em que eles perderam a confiança, aconteceu o contrário com vocês, né? Principalmente com o Oscar e com você...

MS - Mas é preciso cuidado para não cometer o engano de achar que a gente acertou todos os arremessos que fez. O Cadum (ex-jogador da Seleção, hoje técnico de basquete) fez um scout (análise das estatísticas) mais moderno do jogo, e concluiu que nós só superamos os americanos nas bolas de 3 pontos. Nos outros fundamentos, foi um jogo normal no segundo tempo.

BLOGOL - Em termos materiais, o que você guardou daquele jogo?

MS - Isso é engraçado. Durante o aquecimento, um daqueles meninos que limpam a quadra e pegam bolas, pediu a minha camisa. Eu disse, brincando, que só daria se a gente ganhasse. Depois do jogo, eu fiquei uns vinte minutos fugindo dele. Mas o menino me achou depois da cerimônia de premiação e eu tive de dar a camisa pra ele. Fiquei só com a medalha, mas tá bom, né? A medalha e as minhas memórias. Não preciso de mais nada.


enviada por André Kfouri






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