BLOGOL Kfouri
27/07/2007 12:02

ENTREVISTA DA SEXTA

Pouca gente conhece o dia-a-dia de quem joga na Seleção Brasileira de vôlei.

Menos gente ainda pode falar sobre como é jogar na Seleção, sob o comando de Bernardinho.

Ana Moser viveu essa experiência durante seis anos de sua carreira espetacular.

Para minha sorte, somos colegas na ESPN Brasil. Falar com ela foi fácil.

Abaixo, uma entrevista que joga um pouco de luz sobre o corte de Ricardinho.

E a convivência com gênios.


BLOGOL - Você acha que as pessoas, mesmo aquelas que acompanham esportes, têm noção do stress de quem joga na Seleção Brasileira de Vôlei? Em nenhum outro esporte coletivo se treina tanto (em carga horária e em intensidade) e se passa tanto tempo longe de casa...

AM - Não, não dá para ter essa noção. É muita exigência. E é uma rotina muito bitolada, o que "quebra" alguns atletas. Você não tem vida pessoal, vida familiar. Não tem lazer, não tem ócio. É responsabilidade o tempo inteiro, diferentes tipos de assédio o tempo inteiro. O atleta é o pilar de toda uma estrutura, o sistema todo gira em torno dele, e isso é muito sacrificante. O atleta (nesse nível) ganha dinheiro, tem compensações. Há gente fazendo tudo por ele no dia-a-dia, ele não precisa se preocupar com nada. Só tem de treinar, jogar, fazer fisioterapia. Isso é que bitola. E o atleta que tem uma formação melhor sofre mais, pela falta de espontaneidade. Além disso, o atleta sofre pelo desgaste físico. No sistema todo, tem muita gente trabalhando duro, horas e horas por dia, mas só o atleta tem de lidar com esgotamento físico. E a coisa é muito dirigida. Eu não tinha filhos quando jogava, mas ficar longe da minha casa, da minha família, era muito difícil. Eu tinha uma técnica: em "emburrecia" para sofrer menos. Se eu ficasse pensando muito nas coisas, se parasse para me preocupar, pirava. É claro que tem os pontos positivos, grana, aprendizado, conhecimento. E quando se tem um grupo de pessoas muito diferentes, que vive junto o dia inteiro por muito tempo, o desgaste de relacionamento é inevitável.

BLOGOL - Como é jogar para o Bernardinho? Ele atingiu um nível de excelência raríssimo, os resultados são impressionantes. Mas eu queria saber como ele é no gerenciamento de pessoas. Já ouvi que esse é um dos pontos fortes dele, mas também já ouvi o contrário. Pela sua experiência, como é?

AM - Ele tem uma coisa, que é até feminina, de sensibilidade. Eu só posso falar da minha experiência, e das coisas que eu vi. Comigo, ele sempre foi 100%. Tudo que eu precisei, ele fez. Em todos os nossos acordos (em épocas em que Ana estava machucada, e não podia treinar com as outras), ele cumpriu a parte dele. E eu também cumpri a minha. Eu dizia: preciso de dois meses, não posso fazer isso..., e ele segurava a onda. O "modelo normal" de uma equipe é os atletas se juntarem em torno do técnico. São raros os times que se unem e resolvem as coisas independentmente do treinador. Os times do Bernardinho são assim, os atletas em volta dele. E ele fecha acordos coletivos, de objetivos, de cobrança, e isso é muito importante. Ele se entrega demais, não descansa nunca, não dorme, estuda e pensa nas coisas o tempo inteiro. É meio neurótico com o andamento das coisas do jeito que ele acha que tem que ser. É extremo em tudo, estratégico. O Bernardinho é acima da média, é um gênio. Por isso os resultados dele são o que são. Lógico que tem efeitos colaterais, que fazem com que as coisas não durem muito. Por isso há poucos exemplos de times que ganharam muito por muito tempo.

BLOGOL - Como ele resolve problemas internos, entre as pessoas?

AM - É muito difícil responder isso. Porque ninguém acerta sempre, ninguém consegue ser justo sempre. Principalmente num sistema em que uma pessoa só decide. É muito complicado. Sempre vai ter um lado prejudicado, uma parcialidade. O esporte é assim. O atleta não tem voz, não tem muita participação nas coisas. O atleta ainda é muito de seguir ordens. O sistema no esporte, com raras exceções, é assim: o atleta é individualista, e o técnico é ditador. Nós estamos muito longe de algo diferente disso, como foi a Democracia Corinthiana, como são alguns times americanos, em que o modelo é outro.

BLOGOL - Em comparação aos outros grandes levantadores que o Brasil já teve, onde fica o Ricardinho?

AM - Ele mudou o jogo. O jogo hoje é diferente por causa dele.

BLOGOL - Como assim?

AM - Ele é mais rápido, mais imprevisível, mais "maluco". Faz as coisas de um jeito diferente.

BLOGOL - Mas não se dizia isso, também, sobre o Maurício?

AM - Sim, mas o Ricardinho deu um passo à frente. O Maurício já tinha dado um passo em relação ao William, e o Ricardinho deu outro.

BLOGOL - Como você vê essa história dos jogadores dizerem que, se ganharem a medalha de ouro no Pan, o Ricardinho também terá ganho? É diferente, por exemplo, de oferecer a medalha para um jogador que se machucou e não pôde jogar, não é? O Ricardinho foi cortado pelo técnico...

AM - É, aí é que está. O corte signfica que o Bernardinho disse que o Ricardinho não está no grupo. Os jogadores, ao oferecerem a medalha, estão dizendo que o Ricardinho está. Como fica isso? Quem vai oferecer a medalha? O Bernardinho também vai oferecer a medalha? Não se sabe se ele vai voltar, se não vai. Se ele quer, se o Bernardinho quer. Não está nada definido.

BLOGOL - Dá para ganhar o Pan comigo como levantador do time?

AM - Com você, não. Mas com o Marcelinho, claro que dá. Com o Bruno, não sei, porque nunca o vi jogando nesse nível. Mas com o Marcelinho, é claro que dá.


enviada por André Kfouri






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