BLOGOL Kfouri
18/07/2007 18:24

É PRECISO ABRIR A CAIXA-PRETA DA NOSSA CRISE AÉREA

Difícil escrever sobre esporte num dia como hoje.

Difícil escrever sobre qualquer coisa.

Nunca tive medo de voar. Desde pequeno, a experiência nunca me incomodou.

Por causa da profissão, já passei por situações que deveriam me assustar, mas acabaram virando histórias para contar em conversas entre amigos.

Um vôo noturno, com chuva, entre Lyon e Frankfurt, em que a turbulência era tão forte que as pessoas passavam mal.

Uma decolagem abortada no meio da pista de Cumbica, com uso dos freios de emergência, a coisa mais próxima com uma freada de montanha-russa fora de um parque de diversões. O comandante dizia "Não entrem em pânico!", as pessoas gritavam. Quando o vôo para Nova Iorque saiu no dia seguinte, não tive a menor preocupação em entrar no mesmo avião.

Também passei pelo inverso, um pouso em que o comandante teve de arremeter, num vôo entre São Paulo e Ribeirão Preto.

E incontáveis viagens em aviões muito pequenos ou muito velhos, que não inspiravam confiança, mas foram feitas sem maiores dramas.

Depois de 11 de setembro de 2001, vôos nos Estados Unidos e na Europa passaram a me deixar um pouco tenso, por motivos óbvios.

Mas não deixei de ir a lugar nenhum por isso. Nem mesmo depois que um vôo da Varig (para Nova Iorque, em outubro daquele ano) não saiu de Cumbica por causa de uma "substância estranha, parecida com talco", encontrada em um dos banheiros. Era talco mesmo, brincadeira de idiotas em meio aos alertas sobre o uso de antrax, por terroristas.

Mas a gente vai ficando mais velho, se casa, tem filhos, e passa a ser mais preocupado, ou mais neurótico.

Diz que não entra mais em Fokker-100, até encontrar um num vôo curto dentro da Europa. E entra, claro.

Com medo, mas entra.

Diz que não entra mais em avião muito pequeno, até que um Bandeirante (ótimo avião da Embraer) se transforma na diferença entre a volta para casa ou outra noite fora.

E entra.

Diz que não entra mais em avião muito velho, até que TODOS os aviões que faziam os trechos internos na Venezuela, durante a Copa América, eram velhos.

Descobri onde fica a plaquinha com informações sobre modelo e ano de fabricação. Nos pequenos McDonnell Douglas da Aserca, ela fica bem na lateral da porta, do lado esquerdo de quem entra.

1978, 1980, 1981...

O último trecho, de Maracaibo para Caracas, bateu o recorde: 1968.

Achei que demorou um pouco para subir, achei que as turbinas faziam um barulho diferente... mas pode ter sido coisa da minha cabeça.

O fato é que os modernos aviões da Gol me deixavam tranquilos.

Os AirBus da TAM, também.

Bobagem.

A crise aérea brasileira é o que devemos temer.

Ontem, mais 188 pessoas foram vítimas dela.


enviada por André Kfouri






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