BLOGOL Kfouri
10/06/2007 10:58

COLUNA DOMINICAL - EDIÇÃO ESPECIAL

O APITO ELETRÔNICO

Na semana passada, num post sobre a punição de dois jogos para o atacante Edmundo (suspenso por falta violenta em Miranda, sem ter sido expulso), revelei minha opinião sobre a necessidade da adoção de um sistema eletrônico de monitoramento da arbitragem no futebol.

Nem sempre pensei assim. Durante algum tempo, defendi a "pureza" do jogo, sua uniformidade em praticamente todos os cantos onde haja uma bola rolando. Depois, percebi a utilidade do vídeo para detectar faltas disciplinares que tivessem escapado aos olhos dos árbitros. Gostei também da idéia da bola com chip, que faz descansar a pergunta: "entrou?".

Mas me incomodava com qualquer tipo de interferência técnica durante os jogos. Impedimentos, faltas, pênaltis, deveriam ser decididos, unicamente, pelo trio de arbitragem. Se, no minuto seguinte, a televisão mostrasse o erro, paciência. É do jogo.

Não mais.

A mais significativa mudança no futebol, ao longo da história, não aconteceu dentro de campo. O jogo permanece basicamente o mesmo, acompanhando o desenvolvimento do ser humano e dos materiais, com raras mudanças na regra.

Foi a maneira de vermos o futebol que mudou radicalmente, por causa do aperfeiçoamento das transmissões pela televisão. Nada mais escapa às lentes de câmeras moderníssimas, posicionadas estrategicamente de modo a dissecar uma partida.

O problema é que esse aparato é o grande adversário do árbitro e de seus auxiliares. Os acertos são vistos como obrigação. Os erros, reclamados como "interferência no resultado".

Atualmente, quem está no sofá vê um jogo completamente diferente de quem o arbitra. Percebe os enganos, as falhas, os erros grotescos, e fica pensando como seria se aquele impedimento não fosse marcado. Ou se aquela falta, que o juiz achou que foi meio metro fora da área, mas foi dentro, tivesse sido transformada em pênalti. Ou se...

As câmeras são os verdadeiros juizes. Que sejam oficializadas, então.

Que sejam usadas para ajudar os árbitros a garantir que o placar final de um jogo de futebol seja produzido apenas pelas ações dos jogadores em campo, com o maior índice de acerto possível.

Aqui estão minhas idéias (porque é sempre melhor criticar sugerindo):

* O apito eletrônico nada mais é do que um segundo trio de arbitragem, posicionado numa cabine no estádio, diante de monitores de televisão.

* Por que três pessoas, e não duas, ou uma? Porque uma decisão tomada em grupo (e por um número ímpar de pessoas), em caso de dúvida, é uma decisão mais acertada.

* O "trio eletrônico" se comunica com o árbitro do jogo, via rádio, mas quando o árbitro achar conveniente. Os observadores estão lá para ajudar o juiz, não para comandá-lo.

* Exceção feita a três casos, em que a marcação do juiz será modificada pela cabine, se estiver errada: faltas dentro da área e jogadas de gol. O objetivo é garantir que as mudanças no placar sejam as mais limpas possíveis.

* O terceiro caso é o das agressões físicas deliberadas (murros, chutes, cotoveladas, cuspes e afins) e das faltas excessivamente violentas (por exemplo, a entrada de Edmundo em Miranda) que tenham passado despercebidas, ou sido ignoradas. O juiz será comunicado e deverá expulsar o(s) infrator(es).

* Os times também podem recorrer ao apito eletrônico, quando se sentirem prejudicados por uma marcação, mas não sempre que quiserem. Cada técnico pode solicitar ao quarto-árbitro que um lance (qualquer lance) seja revisto, duas vezes em cada tempo do jogo.

* Dois "desafios" por tempo me parecem um número razoável, levando-se em conta que o jogo será paralisado por alguns segundos. Não queremos que a partida demore horas.

* Não há nenhum tipo de penalização para o time que solicitou o replay, se ficar provado que o árbitro acertou.

* A partir dos quarenta minutos do segundo tempo, os times ganham direito a mais um desafio cada. Se alguém vai ganhar um jogo nos momentos finais, que seja com um gol legal, não com um erro do trio.

É evidente que esse sistema só existiria nos jogos de futebol transmitidos pela televisão. O que significa que uma partida da terceira divisão do Campeonato de Sei-Lá-Aonde estaria por conta, apenas, do trio de arbitragem.

O que se pode fazer? É uma questão de representatividade. Quando a terceira divisão do Campeonato de Sei-Lá-Aonde for importante para um número significativo de pessoas, será maior a chance dela contar com o sistema.

Hoje em dia, qualquer jogo de futebol que se preze está na TV.

O apito eletrônico ajudará a garantir a lisura dos resultados de jogos e de campeonatos, sem acabar com a chamada "polêmica" do futebol. A diferença é que, no dia seguinte, não haverá prejudicados.

E também eliminará do futebol a figura do árbitro desonesto, quase tão antiga quanto o próprio esporte. Será muito mais difícil roubar.

Críticas e sugestões são muito bem-vindas, como sempre. Convido o blogueiro suficientemente interessado a discutir o tema e, talvez, aperfeiçoar o sistema.

Aí formataremos o processo e o enviaremos à FIFA.

Quem sabe, lá pelo ano 2350, ele entre em vigor.


ATUALIZAÇÃO, 14h44 - Faltou uma explicação para o caso das jogadas de impedimento, quase sempre polêmicas. O que aconteceria se um impedimento fosse marcado, a jogada fosse paralisada, e no desafio do time que estava no ataque, ficasse comprovado que a jogada era legal?

Bem, seria impossível recriar a jogada, com todos os jogadores na exata posição em que estavam no momento em que o impedimento foi apontado.

A solução é uma MUDANÇA NA REGRA do jogo: toda jogada em que há um impedimento marcado prossegue até o final.

O auxiliar levanta a bandeira e PERMANECE com seu instrumento erguido.

Quando a bola parar, se for gol, o lance será revisto como aconteceria em qualquer lance de gol. Impedimento confirmado, gol anulado. Jogada legal, gol.

Se a jogada terminar com posse de bola do ataque (falta, escanteio ou lateral), o time que se defende pode optar por desafiar a marcação, para recuperar a posse.

Se a jogada terminar com posse de bola da defesa (falta, lateral ou tiro de meta), o jogo prossegue.

É uma situação um pouco mais complicada, mas pelo menos garante (como manda a regra) que, na dúvida, o lance deve seguir.


enviada por André Kfouri






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